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sábado, maio 25, 2019

LMC ENTRE FUNCHAIS


No Museu de Marinha de Lisboa a 22-05-2019 a gravar um depoimento sobre o FUNCHAL e os Paquetes Portugueses para um documentário destinado à RTP. Fotografia apropriada de NoMorePhotos by mjw que registou um momento enquadrado pelas duas maquetes do FUNCHAL expostas na sala da Marinha Mercante do nosso Museu de Marinha: em primeiro plano o modelo com as cores da CTM que esteve muitos anos na montra da secção de passagens da Insulana e CTM na Rua Augusta 152, em Lisboa. Ao fundo, o modelo do FUNCHAL com as cores originais que o navio apresentava de 1961 a 1972, e que sempre conheci nesta sala. Texto e imagens /Text and images copyright L.M.Correia. Favor não piratear. Respeite o meu trabalho / No piracy, please. For other posts and images, check our archive at the right column of the main page. Click on the photos to see them enlarged. Thanks for your visit and comments. Luís Miguel Correia

sábado, abril 19, 2014

O REGRESSO DO FUNCHAL

O REGRESSO DO PAQUETE FUNCHAL

Por Luís Miguel Correia 

(Artigo publicado na revista CRUZEIROS, edição nº 11)


A grande sensação nos meios marítimos e de cruzeiros portugueses em 2013 foi o regresso espectacular do paquete FUNCHAL à actividade de cruzeiros, por iniciativa da nova empresa Portuscale Cruises.
O dia 1 de Agosto de 2013 acrescentou mais uma data importante na já longa história do FUNCHAL, com a inauguração oficial do navio pelo primeiro ministro Passos Coelho.
A cerimónia decorreu a bordo do FUNCHAL na doca seca, no estaleiro da Rocha, e contou com a presença do armador Rui Alegre, e de muitos convidados da Portuscale Cruises.
Foi o virar de página do período mais difícil da história do FUNCHAL até hoje. Após conclusão do programa de cruzeiros de 2010, o navio fora imobilizado em Lisboa pela empresa Classic International Cruises em Setembro desse ano, com o futuro pendente devido à necessidade de reconstrução segundo as novas regras da convenção SOLAS, implementadas em Outubro de 2010. O armador anterior, considerou que, apesar da idade, – o FUNCHAL estava com 49 anos – um conjunto de características únicas, nomeadamente o baixo consumo de combustível e economia de operação, a dimensão familiar e a notoriedade junto de uma clientela diversificada, justificavam um investimentos de cerca de 10 milhões de euros na renovação e prolongamento da vida útil do FUNCHAL.
Este projecto chegou a arrancar mas foi interrompido em Julho de 2011 por constrangimentos financeiros, e o navio foi-se degradando, acabando a companhia por falir no final de 2012, quando o FUNCHAL ficou abandonado na ponte-cais da Matinha, sem tripulação. Quando tudo indicava que o destino próximo do FUNCHAL seria a venda para sucata, a boa estrela que sempre havia protegido o nosso último paquete tradicional proporcionou novas perspectivas.
Em Janeiro deste ano o FUNCHAL foi comprado por uma nova empresa criada por Rui Alegre e de imediato recomeçaram os trabalhos de modernização, recuperando-se o que entretanto se havia degradado desnecessariamente e introduzindo novos padrões de qualidade ainda mais exigentes comparativamente ao projecto original. O processo de recuperação do FUNCHAL entrou logo em ritmo crescente: o navio voltou a ter tripulação, os cabos de amarração foram de imediato substituídos, pois os que se encontravam a bordo estavam totalmente degradados, recomeçou a ver-se pessoal a trabalhar em reparações. Em paralelo foi criada de raiz uma empresa operadora, a Portuscale Cruises, e deram-se os primeiros passos na área comercial.
O renascimento do FUNCHAL foi entretanto anunciado por todo o País, em cartazes “outdoors”, publicitando a “Grande Viagem Inaugural”, a sair de Lisboa em Agosto: uma primeira série de cruzeiros à Escandinávia e Europa do Norte, recuperando a ligação antiga do FUNCHAL ao mercado de cruzeiros sueco, com uma série de viagens a decorrer de 6 de Agosto a 20 de Setembro, seguindo-se um cruzeiro aos Açores, de 20 a 29 de Setembro a partir de Lisboa, e um cruzeiro pelo Mediterrâneo, com passageiros franceses, em Outubro.
Ponto alto neste percurso rápido de regresso do FUNCHAL ao activo foi a transferência do paquete do cais da Matinha para a Rocha do Conde de Óbidos, a 3 de Junho, embandeirado em arco a adivinhar já as metamorfoses por que iria passar na reparação mais importante a que foi submetido desde 1973, quando mudou as máquinas. Centenas de operários e técnicos tomaram conta do FUNCHAL: renovou-se o casco e as principais estruturas do navio, com muitas toneladas de aço substituídas, o casco e grande parte das superstruturas foram decapadas, reconstruiram-se os interiores – espaços públicos e camarotes, actualizaram-se os equipamentos de navegação, reconstruíu-se a ponte de comando, instalou-se um propulsor de proa, renovaram-se, as máquinas e geradores, a instalação de ar condicionado, a cozinha, os encanamentos, todos os sistemas e equipamentos de segurança, ampliaram-se os tombadilhos, solários e bares exteriores, fez-se uma piscina nova, enfim o FUNCHAL foi renovado da proa à popa.
À medida que avançaram as reparações, foi aumentando o volume das intervenções a efectuar, o que acabou por se traduzir em mais tempo de estaleiro e na necessidade de reprogramar a introdução do navio, com o cancelamento dos primeiros três cruzeiros previstos para o período de 6 de Agosto a 2 de Setembro.
Acompanhei de perto toda a reabilitação do FUNCHAL e não é fácil descrever o ritmo com que se sucederam as mudanças: a chaminé foi pintada de amarelo a 10 de Julho, a 12 pintou-se o casco de azul escuro, quase preto, e o FUNCHAL foi retomando toda a dignidade de outros tempos, com novas cores inspiradas nas da antiga Empresa Insulana.
Na festa de inauguração a 1 de Agosto foi içada a bandeira nacional à popa e o cónego Nuno Isidro deu a bênção ao paquete, após o que discursaram o armador e o primeiro ministro. Passos Coelho realçou a importância da recuperação do FUNCHAL, à luz das perspectivas de desenvolvimento da economia do mar e do turismo, elogiando a capacidade empreendedora de Rui Alegre e destacando a recuperação do FUNCHAL como exemplo das acções necessárias para se devolver a esperança a Portugal. Seguiu-se a actuação dos artistas Carlos Guilherme, Carlos do Carmo e Inês Santos, e a “festa do FUNCHAL” teve ainda fogo de artifício. No final os convidados foram presenteados com o livro “Paquete Funchal Ser do Mar”, publicado expressamente pela Portuscale em homenagem ao FUNCHAL.
Entrando na contagem final para o regresso do FUNCHAL ao mar, o navio deixou o estaleiro da Navalrocha na manhã de 13 de Agosto após ter permanecido 72 dias na doca seca nº 1, e foi atracar à Ponta da Rocha do Conde de Óbidos, onde prosseguiram os trabalhos finais e se procedeu ao abastecimento. A 15 de Agosto de tarde o FUNCHAL largou finalmente para provas de mar e saiu a barra do Tejo, fazendo uma série de experiências ao largo do cabo Espichel, para regressar ao cais da Rocha ao anoitecer. Na noite de 20 de Agosto o FUNCHAL largou do cais e foi fundear no Mar da Palha onde prosseguiram os preparativos finais para a viagem até Gotemburgo, que teve início ao amanhecer de 22 de Agosto.
O FUNCHAL chegou a Gotemburgo na tarde de 26 de Agosto, sem que tivesse sido possível solucionar os últimos problemas técnicos ainda em aberto, o que obrigou o paquete a permanecer atracado até 2 de Setembro, quando as inspecções técnicas e a sociedade classificadora deram o navio como pronto e foram passados os certificados respectivos. Foi com um enorme esforço da tripulação que se ultrapassaram dificuldades técnicas de última hora, naturais após uma intervenção tão profunda como aquela a que o FUNCHAL foi submetido, mas que se traduziram em notícias especulativas por parte da imprensa, em Portugal e na Suécia.
Tudo acabou por ser ultrapassado e a 2 de Setembro de 2013 o FUNCHAL reentrou ao serviço com o primeiro cruzeiro da companhia Portuscale, uma viagem de 8 dias à Escócia, a que se seguiu, de 9 a 20 de Setembro, o cruzeiro Rota dos Vinhos, com saída de Gotemburgo e final em Lisboa. Na tarde de 20 de Setembro o FUNCHAL largou para os Açores, numa espécie de cruzeiro nostálgico, tendo sido recebido com muito entusiasmo pelos Açorianos.
De regresso a Lisboa a 29 de Setembro, o FUNCHAL saiu na manhã seguinte para o Mediterrâneo, com escala técnica em Gibraltar, para abastecimento de combustível, e efectuou de 4 a 16 de Outubro, um cruzeiro com largada de Nice, escalas em Civitavecchia, Kusadasi, Dikili, Kavala, Pireu, Nauplia, La Valetta, transito pelos canais de Messina e Corinto e desembarque no Mónaco, de onde o navio regressou a Lisboa, com novo abastecimento de combustível em Gibraltar e entrada em Lisboa na manhã de 21 de Outubro, quando atracou em Santa Apolónia, onde permanece, estando a decorrer a bordo diversas reparações e melhoramentos.
Entretanto o próximo cruzeiro do FUNCHAL tem um significado muito especial: o navio sai de Lisboa a 29 de Dezembro rumo ao Funchal para a famosa passagem de ano, de 31 de Dezembro a 1 de Janeiro. O FUNCHAL regressa assim à Madeira na altura mais nobre possível, reatando a tradição da realização de cruzeiros de Lisboa ao Funchal com paquetes portugueses, que nas décadas de 1960 e 1970 se chegaram a realizar com três navios em simultâneo com 1600 passageiros a bordo.
Será a décima segunda vez que o FUNCHAL passa o fim de ano na baía que lhe deu o nome, a primeira das quais em 1961-62 e a mais recente na passagem de 1974 para 75. O cruzeiro de fim de ano terá a duração de uma semana, visitando ainda Safi, em Marrocos, porto que dá acesso a Marrakech, antes de regressar a Lisboa a 5 de Janeiro de 2014.
Com a próxima ida à Madeira, o FUNCHAL regressa às suas origens, pois foi construído principalmente para servir esta ilha e apoiar o seu desenvolvimento turístico. Em muitos aspectos o FUNCHAL é agora um paquete novo. Se exteriormente parece ter retomado as cores da fase inicial da Empresa Insulana, por dentro a perspectiva é outra. Os espaços públicos e os camarotes foram totalmente renovados, apresentando agora uma decoração mais contemporânea, ainda que respeitando os espaços e estilo clássico originais do navio. A escolha de cores e materiais utilizados dão a impressão de maior espaço interior, a substituição das madeiras decorativas originais, obrigatória por via da nova convenção SOLAS desde 2010 por materiais incombustiveis a imitar madeira funcionou bem, e no seu conjunto os novos interiores mostram agora um navio ainda mais acolhedor e confortável.
Mantiveram-se os salões principais Gama e Ilha Verde, bem como o bar Porto, mas criaram-se novos espaços como o Havana Cigar Club, a biblioteca e sala de jogos, casino e sala de crianças, ou o espaço comercial, muito melhorado e ampliado. Os decks e as áreas exteriores acessíveis aos passageiros foram também melhoradas de forma inteligente, com destaque para a piscina e bar respectivo e para o pavimento superior, junto à chaminé. Todas estas transformações fazem do FUNCHAL um navio de sonho de onde não apetece nunca desembarcar, sendo tudo isto complementado com a mesma tripulação excelente de sempre.
Por tudo isto, o regresso do FUNCHAL é a melhor surpresa de 2013 para quem gosta de viajar no mar. O navio está lindíssimo.Texto e imagens /Text and images copyright L.M.Correia. Favor não piratear. Respeite o meu trabalho / No piracy, please. For other posts and images, check our archive at the right column of the main page. Click on the photos to see them enlarged. Thanks for your visit and comments. Luís Miguel Correia

sábado, fevereiro 15, 2014

FUNCHAL - capa da REVISTA DE MARINHA

Ao longo dos anos, nunca perdi uma oportunidade de divulgar o FUNCHAL e estudar a sua história e actividades.
O navio fez 20 anos em 1981 e tive então oportunidade de ver publicada uma primeira capa do paquete FUNCHAL feita por mim na Revista de Marinha, onde estava a colaborar desde 1980.
Não foi talvez a minha melhor capa do FUNCHAL, as cores do navio, em especial a chaminé, não ajudavam e o dia em que registei a imagem estava cinzento, mas foi a primeira, complementada com um texto de divulgação inserido na página de abertura da RM.
Quando completou 20 anos o FUNCHAL já não era considerado propriamente um navio novo, estava com a idade em que se enviara para a sucata o VERA CRUZ, e a situação da CTM e da generalidade da Marinha Mercante em Portugal não era a melhor. Quatro anos mais tarde, a companhia seria liquidada e a frota toda vendida em leilão, inaugurando-se a sangria com a venda do FUNCHAL a uma empresa do Panamá, em Agosto de 1985. Tudo isto com uma mãozinha inspiradoura do FMI, então por cá a ajudar a velha Pátria de Marinheiros a redescobrir os seus rumos.
Não foi o fim do navio, que deu origem à Classic International Cruises, navegando até Setembro de 2010, para ser depois renovado e restaurado pela Portuscale em 2013.
Quem diria em 1981, quando fiz esta capa que o FUNCHAL era de facto nessa época um navio quase novo?
Quem quiser ler o texto pode ampliar a imagem para melhor leitura,fazendo pressão sobre a mesma.
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sábado, outubro 12, 2013

O Novo Paquete FUNCHAL há 50 Anos

Este artigo original foi escrito para assinalar os 50 anos do Paquete FUNCHAL e publicado em 2011 na revista CRUZEIROS. O contexto final do artrigo tem de ser lido tendo em consideração que há dois anos a possibilidade de a Classic International Cruises e o seu criador George Potamianos desaparecerem a relativamente curto prazo não fazia parte da equação. A modernização do navio prosseguia com cruzeiros programados para arrancar em Julho de 2011. Claro que a realidade foi outra, mas entretanto o nosso FUNCHAL voltou ao mar e continua a encantar tudo e todos agora sob a orientação de Rui Alegre. LMC

O Novo Paquete FUNCHAL há 50 Anos

Texto de LUÍS MIGUEL CORREIA
Fotos da colecção L. M. CORREIA

Portugal desenvolveu uma importante frota de navios de passageiros no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, mais concretamente entre 1947 e 1966.
Nesse ano de 1966 os quatro principais armadores portugueses, Companhia Colonial, Companhia Nacional, Empresa Insulana e Sociedade Geral operavam com 26 navios de passageiros, alguns dos quais eram o orgulho nacional, a par do futebolista Eusébio e da fadista Amália Rodrigues. A maior parte destes paquetes asseguravam as carreiras regulares para o Ultramar e o movimento de tropas entre Lisboa, África e o Extremo Oriente. Em paralelo, desde a década de 1930 que se havia criado uma tradição de efectuar cruzeiros turísticos para o mercado português com os nossos paquetes.
A empresa de navegação mais antiga era então a Insulana, que assegurava desde 1871 o transporte de passageiros, correio e carga entre o Continente e os Açores, tendo alargado a sua actividade à Madeira em 1875. Com os anos a Insulana tornou-se parte da vida e história das Ilhas, com os seus navios a figurarem repetidamente como figuras centrais do “Dia de S. Vapor”, o dia da passagem regular por cada uma das Ilhas. Com os anos foram-se sucedendo diversas gerações de navios, com destaque para os vapores LIMA (1923-1968) e CARVALHO ARAÚJO (1930-1970), cuja substituição foi considerada no âmbito do Despacho 100 em 1945, por dois navios de 4.500 toneladas e lotação para 300 passageiros que não chegariam a ser construídos.
A questão da substituição do velho LIMA, que já navegava desde 1908, primeiro com bandeira alemã e o nome WESTERWALD, ao serviço da empresa Hapag, e com as cores portuguesas a partir de 1916, foi-se tornando cada vez mais premente e assim, em Agosto de 1959 a Empresa Insulana encomendou a um estaleiro da Dinamarca a construção do paquete FUNCHAL, que custou então 202 mil contos. Passados 26 meses o novo paquete das Ilhas entrou em Lisboa, a 19 de Outubro de 1961, vindo de Elsinore e no dia 4 de Novembro seguinte saiu do Tejo pela primeira vez, em viagem inaugural à Madeira e aos Açores.

UM NAVIO DE LUXO

A entrada do FUNCHAL ao serviço no final de 1961 revolucionou o ritual das viagens entre Lisboa, o Funchal e as ilhas dos Açores.
Fernando Lemos Gomes, conhecido designer e artista plástico, autor de diversos quadros belíssimos retratando paquetes portugueses, recorda as suas viagens a bordo do novo navio nos anos 60: “O FUNCHAL representou um progresso enorme, era um navio moderno, rápido e luxuoso, com interiores amplos decorados com um gosto refinado, belíssimos sofás de cabedal, anteparas forradas com madeiras muito bonitas. Impressionou-me bastante a democratização introduzida pelo FUNCHAL, ao nível da estratificação das classes a bordo, muito atenuada com a subtileza da classe turística A e B a substituir as antigas segunda e terceira classes, e a separação longitudinal dos diversos alojamentos e espaços públicos, em vez do anterior sistema de divisão vertical em que a primeira classe ocupava a zona central do navio, a segunda classe se situava à popa e a terceira na proa.”
De facto o FUNCHAL foi um navio particularmente feliz desde a sua concepção, tendo o projecto preliminar sido desenvolvido pelo Engenheiro Construtor Naval português Rogério de Oliveira em conjunto com o Armador Sr. Vasco Bensaude. “O FUNCHAL nasceu em 1958 em sessões de trabalho com o Sr. Vasco Bensaude, no seu palacete de Benfica, em reuniões que se prolongavam até de madrugada, em que ia traduzindo em desenhos as ideias muito precisas do Sr. Bensaude” - contou-me um dia o Almirante Rogério de Oliveira, que antes já tinha projectado o PRÍNCIPE PERFEITO. De facto o armador Vasco Bensaude era uma pessoa com elevado gosto e sentido estético, habituado a viajar nos melhores paquetes do mundo, tendo o FUNCHAL reflectido os mais elevados padrões de qualidade e estética.
Por volta de 1955 a Madeira registava a visita de 11 mil turistas estrangeiros anuais que faziam férias nos diversos hotéis então existentes na ilha. Pensava-se que o desenvolvimento do Turísmo era a grande aposto para o futuro da Madeira, e como sem bons transportes não era possível atrair visitantes, foi decidida a construção do FUNCHAL. O navio tinha 10.000 toneladas de arqueação bruta e lotação para 400 passageiros, sendo 80 de primeira classe, 156 de turística A e 184 de turística B. Media 152 metros de comprimento com 19 metros de boca, e estava equipado com turbinas a vapor Parsons desenvolvendo 13.800 cavalos, que accionavam dois hélices a uma velocidade de serviço de 21 nós, o que permitia fazer a viagem de Lisboa ao Funchal em 26 horas apenas.
Nos primeiros anos de actividade, a operação do FUNCHAL resumia-se a duas viagens seguidas Lisboa – Funchal – Tenerife e regresso intercaladas com uma viagem Lisboa – Funchal – Ponta Delgada – Horta – Angra do Heroísmo. As dimensões do navio haviam sido limitadas precisamente pela escala na capital da ilha Terceira, cujo porto não era acessível a navios maiores. Para além das carreiras à Madeira, Canárias e Açores, o FUNCHAL começou a fazer cruzeiros logo em Dezembro de 1961, tendo efectuado nos primeiros anos de operação diversos cruzeiros às Ilhas Atlânticas, Norte de África e ao Mediterrâneo.
Outro aspecto importante da operação do FUNCHAL no tempo da Empresa Insulana foi a utilização do navio pelo Presidente da República em viagens oficiais e particulares: o Almirante Américo Thomaz utilizou o FUNCHAL em viagens oficiais aos Açores, Madeira, Cabo Verde, Guiné e Brasil, tendo em Abril e Maio de 1972 efectuado uma longa viagem de Lisboa ao Rio de Janeiro para representar Portugal nas comemorações dos 150 anos da independência do Brasil, para cuja finalidade o FUNCHAL foi equipado com uma piscina e pintado com casco azul escuro, adoptando as mesmas cores do iate da rainha de Inglaterra.
O escritor açoreano Vitorino Nemésio que se definia como “Passageiro encartado dos navios da Insulana dos velhos armadores Bensaúdes” foi outra das personalidades a viajar frequentemente no FUNCHAL, tendo deixado escrito no livro de honra do navio, em Outubro de 1963, um testemunho sentido do seu encanto pelo novo paquete: “tudo neste FUNCHAL up to date me deslumbra: a velocidade record, a linha dos decks elegantíssimos (…), a casa de navegação apetrechada dos mais finos nervos da náutica, e enfim a ponte onde o impecável Comandante Bio, com a sua tripulação exemplar, vela por todos quantos aqui vão.”

EX-LÍBRIS DA MARINHA MERCANTE PORTUGUESA

Após 12 anos a navegar para as Ilhas, em 1973 o FUNCHAL sofreu uma modernização importante, que incluiu a transformação dos alojamentos para classe única e a substituição das máquinas a vapor por motores Diesel, muito económicos, e regressou ao serviço com o casco branco, passando a fazer cruzeiros durante todo o ano nos mercados internacionais. Em Fevereiro de 1974 passou a ser propriedade da companhia CTM, e por pressão governamental regressou à carreira das ilhas de Setembro de 1974 a Outubro de 1975, após o que ficou imobilizado em Lisboa, sendo encarada a sua venda.
Foi nesta fase que surgiu na vida do FUNCHAL uma personagem que seria determinante no futuro do navio: o armador grego Sr. George Potamianos, que afretou o FUNCHAL pela primeira vez para uma série de cruzeiros na Escandinávia de Maio a Agosto de 1976, repetindo a operação de 1978 a 1985, ano em que acabou por se tornar armador do FUNCHAL na sequência da liquidação pelo Estado Português da CTM.
Gerido pelo armador Potamianos a partir de Lisboa, o FUNCHAL regressou ao serviço em Dezembro de 1985 com bandeira do Panamá e tripulação portuguesa, colhendo um sucesso imediato e servindo de suporte inicial ao desenvolvimento de uma frota, hoje conhecida por Classic International Cruises que em 1988 seria aumentada com o grande paquete VASCO DA GAMA, ex-INFANTE DOM HENRIQUE, e hoje totaliza cinco navios de passageiros clássicos todos a operar nos mercados internacionais com bandeira portuguesa.
Com o decorrer dos anos o FUNCHAL foi sendo sempre actualizado e modernizado por forma a manter a sua operacionalidade e em 2001 voltou a ter bandeira portuguesa. Hoje o FUNCHAL é reconhecido pelas suas características únicas e muito apreciado um pouco por todo o mundo, da Bélgica e Alemanha à Austrália, onde operou diversas vezes com o maior sucesso. A implementação de novas regras da Convenção SOLAS 2010 relativas a segurança e salvaguarda da vida humana no mar, que entraram em vigor em Outubro de 2010 obrigaram à retirada temporária do FUNCHAL, que se encontra em Lisboa desde 16 de Setembro último, a sofrer uma modernização profunda, por forma a corresponder aos mais recentes critérios de segurança e conforto do mundo actual. Os alojamentos do FUNCHAL estão a ser totalmente reconstruídos, com materiais incombustíveis, o casco foi renovado e as máquinas principais recondicionadas. Com esta intervenção o actual armador Sr. George Potamianos está a investir cerca de 12 milhões de euros no navio, que vai passar a ser um iate de luxo, com 243 camarotes, dos quais 86 suites e junior suites, melhorando muito a área dos camarotes em relação aos tamanhos originais e oferecendo uma alternativa clássica, confortável e elegante à actual geração de gigantescos navios com capacidades para de 3000 a 6000 passageiros.
Com as baixas entretanto verificadas na frota de navios clássicos, vendidos para sucata na sequência do SOLAS 2010, o renovado FUNCHAL reforça as suas caraterísticas únicas, aliadas a formas do casco e qualidade de construção invulgares que permitem antever o FUNCHAL a fazer cruzeiros por muitos e bons anos. Terminada a reconstrução, o FUNCHAL volta ao serviço em Julho próximo com dois cruzeiros a partir de Lisboa um dos quais, comemorativo dos 50 anos do navio, à Madeira e Porto Santo.
Entretanto foi decidido valorizar a imagem clássica do FUNCHAL, pelo que quando regressar aos cruzeiros no início de Julho o navio volta a ter as cores com que saiu do estaleiro Elsinore em Outubro de 1961: casco preto, chaminé amarela e preta, com um toque de modernidade dado pelo emblema da CIC na chaminé e uma risca amarela no costado. O FUNCHAL volta assim a ser um dos mais bonitos navios do mundo, continuando a navegar com o nome original e a bandeira portuguesa, após 50 anos de navegações e cruzeiros. Um caso único no mundo global dos nossos dias. Parabéns ao FUNCHAL e muitos mais anos de vida...

Bibliografia:
  • PAQUETES DOS AÇORES, de Luís Miguel Correia, Edições EIN, Lisboa 2008
  • PAQUETES PORTUGUESES, de Luís Miguel Correia, Edições Inapa, Lisboa 1992
  • Jornal da Marinha Mercante, Lisboa, 1958-1972
  • Revista de Marinha, Lisboa, 1972-1995
  • SHIPS & THE SEA, Editor L. M. Correia (http://lmcshipsandthesea.blogspot.com)

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